Por um Projeto Decolonial de Formação de Docentes: a vez da matemática do professor

Autores

  • Erilúcia Souza da Silva Secretária Municipal de Educação de Manaus e Doutoranda – bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisas do Estado do Amazonas no Programa Pós Graduação de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
  • Maria Helena Monteiro Mendes Baccar Colégio Pedro II – Campus São Cristovão III e Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Ensino de Matemática da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
  • Ronald Simões de Mattos Pinto Colégio Pedro II – Campus São Cristovão II e Doutorando no Programa de Pós Graduação em Ensino de Matemática da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

DOI:

https://doi.org/10.37001/ripem.v11i2.2460

Palavras-chave:

Formação de Professores; Pedagogias Decoloniais; Colonialidade; Matemática Problematizada; Saberes Docentes.

Resumo

A matemática é, frequentemente, utilizada como uma ferramenta a serviço do projeto modernidade/colonialidade. Envolta em uma capa ilusória de neutralidade, essa componente curricular do ensino é vista como um sistema perfeito e que não é influenciado por nenhum interesse político, social ou ideológico. Essa suposta perfeição/isenção é utilizada como justificativa para práticas de opressão e para produção de exclusão social. De fato, aqueles que não aprendem a matemática estabelecida são vistos como menos aptos e colocados no lugar do atraso e da deficiência, gerando subalternização, inferiorização e desumanização. Assim, feita a denúncia da matemática como ferramenta de poder, apresentamos com caráter propositivo, alternativas de pedagogias decoloniais para o ensino da matemática no contexto de um projeto político decolonial mais amplo como insurgência frente ao da modernidade/colonialidade. Entendemos que uma abordagem problematizada da matemática, em contraste com uma exposição naturalizada da disciplina, representaria uma possibilidade para um projeto de pedagogia decolonial do ensino da matemática. No entanto, de que maneira o professor de matemática poderia propor tal abordagem, se o mesmo é formado por meio de uma exposição naturalizada e colonizadora da disciplina na universidade e na escola básica? Não pretendemos responder tal questão, mas propor repensarmos a formação de professores. Com efeito, por meio da lente decolonial, identificamos fissuras no processo de formação docente em três pontos essenciais: a quase-não existência de diálogo entre a matemática ensinada na educação básica e a matemática vista na licenciatura; o consequente entendimento de que não há produção de conhecimento docente próprio da matemática na escola e, por fim, a não valorização da profissão docente. Trabalhar nessas fissuras se apresenta como possibilidade e potência decolonial, no intuito de promover uma educação libertadora e que fuja dos padrões coloniais.

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Publicado

2021-03-31

Como Citar

Souza da Silva, E. ., Monteiro Mendes Baccar, M. H., & Simões de Mattos Pinto, R. . (2021). Por um Projeto Decolonial de Formação de Docentes: a vez da matemática do professor. Revista Internacional De Pesquisa Em Educação Matemática, 11(2), 319-335. https://doi.org/10.37001/ripem.v11i2.2460

Edição

Seção

Dossiê "Educação Matemática e Decolonialidade"

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